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sábado, 16 de julho de 2011

Análise feita pelo autor teatral e poeta Alex Lacoy sobre meu livro infantil

Uma Tanajura no Jardim das Borboletas


Como em toda fábula, conduzimos o raciocínio através de um entendimento moral, uma conclusão de enlevo relevante no que tange as relações humanas. Em Uma Tanajura no Jardim das Borboletas, essa regra primordial é preservada, no entanto, à medida que a narrativa vai se conduzindo, nobres valores são acrescidos ao questionamento principal, o que alavanca a obra de seu patamar unicamente infantil para torná-la democratizada a outras faixas etárias, sem perder o teor lúdico.


Ensinamentos fundamentais são abordados ao longo do livro com a mesma simplicidade com que a natureza se manifesta, em valores como felicidade, aparência, auto estima e amizade servem de pano de fundo para o encontro de dois insetos antagônicos. Identificados pelos nomes de suas próprias espécies: borboleta e tanajura, já no primeiro encontro mostram-se indícios ente suas diferenças e o que fazer para uma possível harmonização nas relações. Também esta questão não faz da fábula a sua grande bandeira. O autor foi sutil em seus ingredientes filosóficos e optou por um tema vital e contemporâneo: a preservação da espécie x extinção. Essa preocupação atinge uma dimensão global, quando a Borboleta passa boa parte da história aconselhando à tanajura pôr seus ovos, mesmo que lhe custe perder as próprias asas. Com leve referência cristã, onde o sacrifício é elemento fundamental para a salvação dos seres, a Tanajura vê-se num grande dilema: deixar de voar como sua amiga para dar prosseguimento à vida, o assumir uma postura egoísta, onde a única beneficiada seria ela mesma.

 
Vence a vida e a posteridade! Podemos observar ainda um segundo sacrifício, em que a Borboleta entrega a sua vida em martírio devido ao compromisso assumido em proteger sua amiga. A obra reúne valores intensos, da entrega à renúncia totais.


Valores e sentimentos. Sentimentos esse apresentados sem ponderações, são ditos de maneira crua, simples como a pureza das crianças ao buscar respostas para o entendimento da vida. A Tanajura, em certos momentos, deixa transparecer comportamentos aparentemente condenáveis, como a inveja, a impotência e a depressão, porém esses estados de espírito são abordados dentro de uma ótica específica, quando acontece a descoberta do próximo e, consequentemente, de si mesmo, o que torna um grande convite para se deparar com as próprias fraquezas e a partir de suas identificações, tomar a atitude de mudança como um ser melhor e modificado. Interessante, é que esse papel cabe à Tanajura, Juarez novamente fugiu do óbvio, pois temos a borboleta como parâmetro de metamorfose universal.


Em meios aos últimos voos (figurativos e físicos) antes de colocar seus ovos, todo um mundo natural é revelado, criaturas minúsculas ganham grande proporções, e com certeza, fascinam as crianças, que estão cada vez mais distantes do mundo natural. Galinhas, beija-flores, aranhas trazem a ideia de territórios organizados numa floresta aparentemente caótica. Seria a arrumação dialética do caos, onde vida e morte se intercalam a todo instante, um processo que cada vez mais propicia um ambiente para a expansão da diversidade.


Apesar de seu discurso ecológico não sofrer a ação do homem, é a conscientizarão da própria natureza por seu estado saudável que nos chama para a responsabilidade com o planeta. Uma Tanajura no Jardim das Borboletas usa a metáfora da permanência da espécie para conceber uma narrativa profundamente existencial. O autor não quer simplesmente chamar atenção para cuidar de plantas e animais, e sim para cuidar do seu semelhante, exercendo condutas que estão desaparecendo com a modernidade: amor, companheirismo e altruísmo. Indo ainda além, seria a preservação da família, o planejamento de filhos e o respeito pelo mútuo.


Juarez apresenta em sua obra uma leitura comovente do que é viver, e que mesmo diante de condições que parecem imutáveis, podemos transformá-las em momentos de profundo prazer e de contribuição coletiva. Em alguns momentos, esse apelo pela vida torna-se tão profundo, que são escolhidas palavras que fogem ao repertório juvenil, porém, tanto quanto à abordagem abstrata que o livro propõe, essas palavras fomentam possíveis perguntas de nossas crianças em relação ao mundo que habitam, que descobrem a cada dia. Como à Tanajura, são crianças ávidas por voar, mas que um dia precisaram pousar para colocar seus ovos e um novo processo da vida reiniciar. Mas enquanto voam, a leitura pode ser mesclada com a interatividade das gravuras monocromáticas, prontas para serem pintadas pelos seus leitores mirins, e assim colorir seus próprios universos e a visão de que têm desse mundo, tão complexo e simples ao mesmo tempo.
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