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quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A última frase


Tenho recebido muitas visitas nestes últimos dias, às vezes até me deixa cansado, mas recebo todos assim mesmo, pois a maioria vem com o intuito de me fazer bem, de me dar uma esperança, um alento, um ombro amigo. Outro dia recebi a visita de uma jovem que apenas conheço de nome, aquelas pessoas que a gente vê na rua, mas que não troca palavras, apenas olhares. A cidade em que moro é pequena e isso é comum. Ela chegou meio sem jeito, sentou-se na minha cama e ficou me olhando um longo tempo sem dizer nenhuma palavra. Percebi algumas lágrimas rolarem pelo seu rosto. Perguntei por que estava chorando e ela disse que gostaria de estar no meu lugar. Fiquei emocionado com sua resposta, pois não tinha intimidade com ela. Como pode alguém querer sofrer os males de uma pessoa que não conhece?
- Tenho inveja de você – continuou ela. Eu estou sempre sozinha, não tenho amigos...
- O que você está me dizendo menina?
- Isso mesmo Tiago. Queria estar no seu lugar, doente, porque assim as pessoas iriam me amar, estaria cercada de amigos...
- Você já está enferma, Heloísa.
Ela levantou-se e ficou olhando minhas fotos na escrivaninha. Eu tive pena daquela jovem. Estava pior do que eu com certeza. Tentei convencê-la a ir procurar um médico, mas se recusou o tempo todo dizendo que estava bem. Depois de algum tempo pediu desculpas e foi embora. Uma semana depois fiquei sabendo que ela entrou na frente de um trem. Disseram que foi horrível. Eu fiquei pensando na morte dela e olhei para mim.
Estou em fase terminal. Um câncer de pele avassalador. Quando descobri a doença ano passado eu tive uma crise e briguei com Deus e com todo o mundo. Uma revolta tomou conta de mim. Uma ferida na face e outra no coração. A pele dilacerada e alma esfacelada. A morte me veio subitamente. Morri pra mim mesmo naquele instante juntamente com todos os meus sonhos. Como enfrentar a minha deformação? Eu que sou tão vaidoso! Eu que gosto de contemplar-me no espelho teria que contemplar chagas abertas e sangrentas... Era demais pra mim. Mergulhei numa tristeza sem precedentes e o câncer se evoluiu rapidamente.
Logo que a notícia se espalhou comecei a receber visitas, muitas visitas mesmo. Amigos, parentes, curiosos, padres, pastores... Cada um com uma palavra e o mais engraçado que cada um me apresentava um Deus diferente. Uns garantiam que eu seria curado, que era só uma provação, eu ficava tentado a acreditar neles, mas meus questionamentos eram muitos. Outros diziam pra eu aceitar, para sofrer sem questionar Deus porque Ele sempre sabe o que faz. Outros ainda me incitavam a desafiá-Lo. “Ou o Senhor me cura ou...” Recebi e recebo muitas orações. De certa forma essas visitas e essas palavras me fizeram bem. Eu me senti amado, eu me senti forte, amparado pelas pessoas que amo e isso tem sido crucial pra enfrentar a doença e a dor que sinto.
Hoje muitas pessoas dizem que me admiram, pois estou sempre alegre e sorridente, de bem com a vida, mesmo sabendo que posso morrer a qualquer instante. Feliz eu não estou e sofro muito quando meus pais entram em meu quarto. A dor que vejo nos olhos deles me atinge a alma e eu tenho que segurar pra não me derramar em lágrimas na frente deles, e percebo que eles fazem o mesmo. E não pensem que sou conformado com minha situação, que ainda não questiono. Deus deve estar com os ouvidos doendo de tanto me ouvir, a diferença é que já não brigo, mas faço muitas perguntas e reclamo por sentir tanta dor. Por que demora tanto em vir me buscar? Só sei que meu lamento não ameniza em nada meu sofrimento, escolhi não reclamar com as pessoas, mas sozinho no quarto...  Não espero nada mais, só a minha hora chegar.
Nestes últimos dias quase não tenho dormido, e só hoje tive coragem de me olhar no espelho. Não me reconheci e nem contive minhas lágrimas. A minha irmã mais nova estava no quarto comigo e saiu em pranto. Meus pais vieram ver o que estava acontecendo. Ficaram estáticos ao me verem jogar o espelho no chão. Depois minha mãe aproximou-se de mim e beijou a minha face ferida pedindo pra eu me acalmar. “Eu te amo tanto meu filho!” Eu chorei de emoção e pedi desculpas, também disse que a amava. Meu pai repetiu o gesto de minha mãe e segurou em minhas mãos dizendo pra eu ser forte, que ele estava junto de mim. O meu furor foi embora diante de tanto amor. Só alguém que ama é capaz de um gesto destes, beijar minhas chagas... É um amor que cura a alma. Senti uma paz invadir todo meu ser e um perfume suave penetrou minhas narinas.
Neste momento estou sozinho e ouço uma música linda e sons de instrumentos que não consigo identificar, ouço o bater de asas... As feridas já não doem, o coração parece diminuir os batimentos, um sono repentino toma conta de mim quando uma luz brilha em meu quarto. Tem alguém chamando meu nome... Sinto meus pais se aproximando, antes de ir pra cama novamente peço para me deixarem escrever uma última frase: “Valeu a pena viver!”

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