Meus visitantes

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A moça da janela


Debruçada sobre o peitoril da janela, Teresa dava notícias de tudo, mas não era fofoqueira. Quando alguém precisava de uma informação era só procurar a moça da janela como era conhecida. Ninguém passava despercebido ante o seu olhar atento. Não muito raro conseguia saber até o que as pessoas traziam nas sacolas de compras. Dona Etelvina, uma viúva que morava no final da rua, detestava passar em frente a casa de Teresa, mas não tinha outra saída. Odiava suas intromissões e vez ou outra trocava farpas com ela.
            - Atrasada hoje hein dona Telvina.
            A viúva contraiu os lábios, apressou os passos e seguiu sem dizer palavra.
            - Dona Telvina, a senhora esqueceu as chaves...
            Ela já estava distante. Parou. Virou para a moça da janela.
            - Como sabe que esqueci as chaves?
            - A senhora só anda com elas penduradas nas mãos com aquela cordinha azul, que, aliás, está hora de trocar. Por falar nisso, no bazar da dona Eulália tem umas lindas e a preços bem em conta...
            Ela fez um muxoxo e retornou à sua casa.
            - Aproveita e toma o remédio de pressão, pois com certeza está alta, a senhora está vermelha como um peru de natal.
            Teresa afastou uma mecha de cabelos que caiu sobre seus olhos e murmurou: “Não sei o que seria desse povo sem mim, tenho que lembrá-los de tudo... Lá vem Sr. Alfeu buscar o neto na escola, aposto que esqueceu que hoje é quinta feira.”
            - Bom dia moça da janela!
            - Bom dia! O senhor esqueceu que hoje quem busca o Jorginho é o pai dele? Pode voltar e descansar...
            - Não é que me esqueci mesmo moça... Não sei o que seria de mim sem você nesta janela!
            - Sr. Alfeu aproveita que o senhor já ta na rua e compra papel higiênico porque o da sua casa ta no fim. Tem quinze dias que o senhor comprou...
            - Obrigado moça.
            E assim Teresa passava o dia. Uns achavam graça, outros a admiravam, outros a achavam uma desocupada, mas ela não se importava; dormia ansiosa para acordar e debruçar na sua janela.
Postar um comentário