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domingo, 18 de setembro de 2011

O Anjo Descalço


Ao abrir o portão de minha casa deparei com uma criança sentada na calçada. Os seus cabelos estavam despenteados e sujos. Vestia um calção de nylon amarelo e uma camiseta de malha vermelha. Os pés descalços com algumas feridas me chamaram a atenção, mas eu estava com pressa para ir ao trabalho e não parei para lhe oferecer ajuda. Segui meu percurso normal de todos os dias até o ponto de ônibus e entrei na fila de espera.  Lembrei-me do meu crachá. Revirei meus bolsos e não o encontrando tive que retornar até minha casa.
O menino estava lá no mesmo lugar. Agora eu estava com mais pressa ainda. Nada podia fazer. Entrei rapidamente, peguei meu crachá e sai. Passei por ele e dei um sorriso meio sem graça e corri até o ponto de ônibus. Se chegasse atrasado tomaria uma bronca do meu chefe.
No final da tarde, após o expediente de trabalho voltei. Ônibus lotado. Um pequeno engarrafamento. Já quase chegando ao meu bairro consegui um lugar para sentar. Tinha uma senhora em pé ao meu lado, acabei cedendo meu lugar a ela. Com muito pesar, mas cedi. Afinal devia estar mais cansada que eu. Ela me agradeceu e sem cerimônia sentou-se.
Desci apressado para chegar a minha casa. De longe avistei algo na minha calçada. “Aquele menino ainda continua lá?” pensei.  Ao me aproximar percebi que estava deitado e todo encolhido. Desta vez tive que parar. Ele estava imóvel.  Inclinei-me até ele. Toquei seu corpo. Permaneceu imóvel. Não senti sua respiração. Olhei seus pés. As feridas estavam minadas de sangue. Tomei seu pulso. Estava morto.
Chamei um taxi, mas o motorista recusou a viagem dizendo que não era da funerária. Fiquei sem saber o que fazer. Entrei em casa e liguei para polícia.
Não consegui dormir aquela noite. A minha negligência matou aquele menino. O meu emprego não deixou que eu o salvasse. 
Hoje sou o responsável por uma casa de menores abandonados. Mais de cem crianças são assistidas e mesmo assim aquela culpa me perturba todas as noites. Aquele olhar me pedindo misericórdia não sai da minha memória.

Juarez do Brasil
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