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domingo, 4 de setembro de 2011

O canto do sabiá


             A rede na varanda balançava como se alguém tivesse acabado de se levantar. Um gato felpudo dormia sobre o banco rústico de madeira ao som de um sabiá que cantava no galho de uma laranjeira que crescera próxima à cerca do quintal. Um par de botas ainda sujas de barro fresco sobre o tapete de retalhos na porta da cozinha. Sobre a pia um copo sujo de café, outro copo sujo de café, mais um copo sujo de café e o coador ainda cheio de borras de café. A cafeteira vazia e formigas doceiras andavam afoitas sobre as vasilhas. Da janela se via o sol se escondendo por entre as montanhas.
            O fogão de lenha cheio de cinzas parecia que não era usado há tempos. Sobre ele apenas uma panela de ferro enferrujada e uma tigela cheia de ovos. A geladeira com a porta aberta desperdiçando energia exalava um cheiro de coisa estragada. Era feijão e leite azedo e algumas hortaliças putrefatas. A mesa de mármore estava nua; nela apenas uma bandeja de inox vazia e um cinzeiro com vários tocos de cigarro, a maioria quase inteiros na verdade.
            A sala com alguns quadros na parede, adornados por teias de aranha e poeira. O sofá com uma almofada e mais três em um colchonete esfarrapado no chão, sobre o qual havia um lençol amassado de cetim. Ao lado um chinelo havaianas e o outro perto do televisor que assistia meus passos naquele momento. O cheiro de mofo inundava o ambiente e me deixava sem ar. Abri a janela e um vento frio perfurou minha alma. Ainda ouvia o canto do sabiá, mas o sol desaparecera por completo.
            No quarto a cama de casal abrigava aquele homem inerte em forma fetal, agarrado a uma camisola e um bichinho de pelúcia. Um dos criados estava com a gaveta aberta deixando à mostra uma caixa de remédios de tarja preta. Alguns comprimidos espalhados e um copo quebrado naquele chão frio, tão frio quanto aquele corpo deveria estar. No outro criado um porta retrato: Uma mulher sendo beijada por uma menina em uma das faces e na outra por aquele homem.
            O armário estava com uma porta aberta, nela um recorte de jornal da semana anterior estampava a seguinte manchete: “mãe e filha morrem carbonizadas ao colidirem o carro contra muro.” Algumas peças de roupas femininas penduradas nos cabides, outras bem dobradas nas divisórias. Perfumes, cremes, pente, pulseiras e outras bijuterias misturadas ilustravam aquele cenário.
            Fotografei tudo e sai. O gato ainda dormia no banco da varanda e só despertou com o barulho das sirenes. Uma senhora desceu aos prantos de um carro vermelho e seguiu em direção a casa, mas foi segurada por um dos policiais, o qual foi sacudido por ela com uma força inexplicável, soltando-a estupefato. Entrou casa adentro tresloucada enquanto os dois jovens que a acompanhavam ficaram atônitos. Um grito se ouviu lá de dentro. Coloquei as mãos na cabeça e sai. Voltei.
            Ao retornar ao quarto me deparei com aquela senhora debruçada sobre aquele homem. Olhou pra mim e disse: “Faça alguma coisa!” Eu fiz. Deixei-a sozinha, pois não tinha nada mais a fazer naquele lugar.

Juarez do Brasil
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