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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Disfarce das sombras



(Minha avó me contava várias histórias, esta é uma delas. E contava à noite, antes de dormir).

Numa sexta-feira, quando dava a última comida para os porcos, Gusmão ao retornar para casa esbarrou-se numa galinha que estava amuada perto de uma bananeira. Ela apenas deu um pio e continuou no mesmo lugar. Ele abaixou lentamente e a tomou em suas mãos. Percebeu que não era do seu terreiro. Talvez fosse de algum vizinho. “Pobrezinha, está perdida,” pensou. Ele a levou para dentro de casa. Carmelita o repreendeu na hora em que o viu com aquela ave debaixo do braço. Pediu que a levasse para o quintal. Ele ficou assustado com o tom da sua voz e disse que iria colocá-la no galinheiro. Carmelita deu as costas e foi arrumar as camas das crianças, pois deitavam muito cedo. Depois de se deitarem, ela ouviu um barulho dentro de casa e se levantou rapidamente. Foi até a cozinha e não viu nada. Depois se dirigiu até o quarto das crianças e acendeu a luz. A galinha estava na cabeceira da cama de Mariana, a filha mais nova. Imediatamente ela a tocou para fora de casa.
Voltou para seu quarto e acusou o marido de ter colocado a ave dentro de casa.
__ Lugar de galinha é no terreiro! Você tem cada idéia!
__ Eu não a coloquei aqui dentro, você tá doida?
__ Então essa galinha tem poderes mágicos, entrou aqui através das paredes, igual fantasma – ironizou.
No outro dia logo cedo, Gusmão se levantou, mas Carmelita permaneceu na cama. Ele achou estranho, mas foi tratar das criações sozinho, e quando voltou sua esposa ainda estava deitada. Acordou as crianças e preparou o café pra elas. Foi até Carmelita e a repreendeu por não ter acordado na hora de costume. Ela disse que estava cansada.
__ Carmelita, essa galinha não é de ninguém aqui da redondeza. Eu sondei na vizinhança. Vamos cuidar dela até que apareça o dono. Com certeza alguém virá procurá-la, pois é de uma raça diferente das que estamos acostumados a ver.
Mais tarde Carmelita foi até a horta e escutou sua filha menor conversando e dando risadas. Aproximou-se de uma amoreira enorme no quintal e a viu sentada num galho ao lado da galinha, que ao vê-la alça vôo e pousa bem longe delas. Carmelita nunca vira uma galinha voar daquele jeito, ficou encabulada. Levou sua filha pra dentro e contou o episódio ao marido.
Outras vezes flagrou sua filha na amoreira, na mesma situação, mas ela sempre dizia que estava cantando. Cada vez ficava mais intrigada, mas seu marido dizia que criança era assim mesmo.
__ Acho que você ainda não percebeu o que está acontecendo com a gente.
__ Percebi sim. Você está ranzinza e insuportável. Não compreende as coisas mais simples. É só uma galinha.
Carmelita saiu para o quarto, pegou a Bíblia e começou a ler. Ouviu sua filha conversando, foi até ela. A galinha estava lá na cabeceira da cama. Irritada tentou segurá-la pelo pescoço, mas desta vez ela ficou brava, e começou a beliscar sua mão, os olhos pareciam avermelhados. Gusmão chegou assustado, aproximou-se da galinha e a pegou tranquilamente.
__ Nem a galinha está te suportando. Pobrezinha, você a assustou.
Carmelita percebeu que havia algo errado naquela ave, mas nada comentou, pois sabia que não iriam acreditar.
__ Gusmão eu tomei uma decisão. Vou matar a galinha, o dono não apareceu mesmo. Estou com vontade de comer sopa.
À noite Carmelita a prendeu no galinheiro. No outro dia quando foi matá-la, não a encontrou. Olhou desconfiada para o marido e o acusou de tê-la soltado. Ele simplesmente balançou a cabeça em sentido negativo.
Procuraram por todo o quintal, mas não a encontraram. Mais tarde ela apareceu na porta da cozinha. Estava piando choco.
Passaram dias tentando descobrir o ninho dela, mas não conseguiram.
Dois dias depois Carmelita viu sua filha menor se embrenhando no mato. Chamou seu marido e a seguiram. Passaram em meio a tantos espinhos e acabaram entrando numa gruta gelada. Ouviram a filha conversando. Acenderam a lanterna. Lá estava a galinha em meio a inúmeras cobras que se enroscavam em seu corpo, mas não a picava. Mariana estava sentada no chão de longe observando.
__ Meu Deus! – exclamou Gusmão.
__ Mariana! – gritou a mãe.
A criança assustou-se e correu para o meio das cobras. A galinha voou até  eles e  começou a bicá-los violentamente.
Os dois não se intimidaram ao perceber do que se tratava e clamaram a presença de Deus. Não tremeram, oraram e quanto mais eram bicados mais pediam a presença do Todo Poderoso.
__ Minha filha, o papai te ama e vai tirar você daí.
Nisto a galinha abriu as asas e uma a uma as serpentes foram se abrigando debaixo dela, desaparecendo em seguida. A galinha se arrepiou toda, suas penas foram se soltando rapidamente formando um redemoinho e levou tudo pelos ares. Ouviu-se um gemido ensurdecedor e apavorante.
Mariana voltou correndo para os seus pais e os abraçou. Nada restou naquele lugar. Voltaram para casa certos de que amor destruiu todo o mal.
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