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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O GIRASSOL AZUL



Lembro-me que antes de sairmos para o passeio de barco, Úrsula pediu a Samuel para checar o e-mail dela, enquanto arrumávamos nossa bagagem.
_ Samuel! Só abra...
_ ... Já sei mãe. Só abra e-mails confiáveis e apague os da caixa de lixo eletrônico.
Rimos juntos enquanto terminávamos de arrumar as coisas para a viagem. Peguei a máquina fotográfica e certifiquei de que estava tudo certo. Depois fomos até Samuel. Ele estava abrindo uma conta de e-mail.
_ Meu filho, a mamãe já falou que ainda não é hora. Você tem apenas sete anos. Tenha paciência...
_ Meus colegas tem, só eu não posso.
Na verdade, eu não via problema nisso, mas respeitava a opinião de minha mulher e não interferia. Samuel apagou nervoso o que já tinha feito e em seguida desligou o computador. Antes, porém, imprimiu algumas fotos dele recebendo o quadro que ganhara na escola e disse que levaria para mostrar aos seus colegas. Ele foi o vencedor do concurso de desenhos.
Quando chegamos ao barco, os alunos da sala dele estavam eufóricos, juntamente com os seus acompanhantes e professores. Eram gritos e risos para todos os lados. Ao verem Samuel alguns colegas gritaram: “Olha o menino do girassol azul!” Chamaram-no assim por causa do desenho que ele fez no concurso. A diretora da escola fez a chamada e fomos entrando conforme falava os nossos nomes. Depois que todos entraram o capitão pediu silêncio e disse:
_ Infelizmente o capitão Maré não pode estar este ano com vocês, pois amanheceu passando mal. Então me pediram para substituí-lo. Não sei se foram avisados, mas não é nada grave, apenas um mal estar. Prometo que tentarei ser tão bom quanto ele e levar a todos vocês com tranqüilidade e segurança. Se precisarem de alguma coisa é só me chamar. Meu nome é Jorge.
Depois a diretora Beatriz fez as suas recomendações e partimos. Olhei no relógio. Marcava 13h30min. A paisagem era linda. Águas límpidas que permitiam ver bem lá no fundo. Comecei a tirar fotos de todo mundo. A cada movimento era um grito de “olha lá!” “O que é aquilo?”...
Samuel se divertia com seus colegas enquanto eu e Úrsula o observávamos admirando sua facilidade em se comunicar. Gesticulava e apontava para o mar, mostrando uma tartaruga para os colegas.
Nisto o barco deu uma parada brusca e muitos de nós fomos ao chão. Houve um alvoroço naquele instante e logo em seguida o capitão apareceu e disse:
_ Atenção! É preciso muita calma agora. Ouçam o que vou falar. Nosso barco está com um problema e pode afundar a qualquer momento. Já chamei salva-vidas que devem estar chegando. Não entrem em pânico! Primeiro vão as crianças, depois as mulheres e por último os homens.
Suas palavras surtiram efeito contrário. A partir daquele momento o terror se instalou entre nós. Gritos por socorro, choros, orações, clamores...
Agarramos nosso filho e tentamos manter a calma. Um bote aproximou-se rápido de nós.
_ As crianças! – Gritou o barqueiro! Andem rápido, vocês não tem muito tempo!
Os pais foram colocando seus filhos naquele bote. Muitos não queriam ir, agarravam-se às mães ou aos professores, mas eram quase que jogados. Aqueles choros de pavor foram horríveis. Úrsula se agarrou a Samuel e não queria deixá-lo ir, mas o capitão a forçou soltá-lo.
- Não! Eu quero meu filho comigo! – Gritou desesperada.
Todas as crianças foram levadas por aquele bote. Logo em seguida o barco começou a afundar. O capitão pegou uma bóia e se atirou ao mar.
Foi uma luta para conseguirmos coletes. Segurei na mão de minha mulher e pulamos na água. Nadamos até o capitão e nos apoiamos em sua bóia. Um barco de pesca que passava por perto nos resgatou. Três pessoas não conseguiram se salvar, duas mães e o avô de uma das crianças.
Chegamos aflitos à praia e fomos procurar nosso filho. Não víamos ninguém da escola, não víamos nenhum bote, nenhuma criança. Saímos procurando e perguntando às pessoas.
_ Eu vi umas crianças entrando num furgão preto e...
_ Onde senhora? – Indaguei aflito.
_ Ali senhor. Saiu na direção do centro da cidade – disse apontando o dedo. O que aconteceu?
Saímos sem responder.
_ Cadê o capitão, Hélio?
_ Não sei Úrsula. Não o vi depois que chegamos aqui, respondi.
Reunimos com todos os pais e fomos até a polícia. Estávamos desorientados e sem saber o que tinha acontecido. Informaram que havia uma quadrilha especializada em tráfico de crianças que estava atacando naquela região. Já havia mais de dez casos de desaparecimento, mas isolados, não em massa como aquele.
Voltei pra casa e escutei minha mulher falando a todo instante que não queria ter deixado o filho ir naquele bote. Culpava-se por ter deixado o capitão tirá-lo de seus braços.
A partir deste acontecimento nossa vida se tornou um martírio. Úrsula não se conformava com o desaparecimento do nosso filho. A investigação era lenta e a cada dia eu, ao contrário de minha mulher, ia perdendo a esperança.
Abria sua caixa de e-mail várias vezes por dia pra ver se Samuel lhe mandava notícias. Distribuiu fotos dele pela internet. Estava obstinada, alucinada e disposta a tudo para tê-lo de volta. Um dia eu lhe disse que ela deveria parar de procurá-lo, pois já deveria estar morto. Chamou-me de insensível, de pai desnaturado, sem amor. “Ele está vivo dentro de mim” disse.
_ Úrsula, meu amor, preste atenção, Samuel é inteligente, esperto, já teria dado notícias, telefonado, passado e-mail, sei lá... Eu acho que temos que seguir adiante com nossa vida e não nos prendermos nesse acontecimento.
Ela faltou pouco me bater, disse que eu estava desistindo muito fácil da vida de nosso filho, que enquanto vida tivesse lutaria para encontrá-lo e assim o fez. Nada demolia sua idéia. Desde aquele fatídico dia minha mulher passou a viver em função dessa busca alucinada. Chegou a um ponto que não suportei mais e nos separamos.
Dentro de um mês foram encontradas cinco das crianças que estavam naquele barco. Todas com vida. Ficamos esperançosos, mas nosso Samuel não estava entre elas. Era muito dolorido pra mim aquela dúvida. Em alguns momentos eu tinha certeza que meu filho estava morto e outras vezes eu parecia ouvir a voz dele me chamando. Acordava no meio da noite e não conseguia mais dormir. A sua imagem ficava na minha frente com aquele sorriso moleque.
Seis meses depois eu estava sozinho em meu apartamento quando Úrsula foi me visitar. Estava muito abatida, mas com um semblante de esperança no olhar. Disse que a partir daquele dia iria usar uma única camiseta que já havia mandado confeccionar.  Só tiraria no dia que reencontrasse Samuel. Não era promessa, era só um meio de chamar a atenção das pessoas. A estampa da camisa era a foto do nosso filho com seu girassol azul, e logo abaixo estava escrito uma frase com letra verde: Eu não desisti de você, meu filho! Essa mesma foto ela espalhou pela internet, jornais, revistas. Fiquei tão comovido com sua atitude de mãe que aderi ao seu plano de ação e naquele mesmo dia voltei pra ela muito arrependido por não ter sido um bom companheiro, por ter sido covarde.
Com o tempo a nossa busca não diminuiu, mas passamos a ter uma vida normal, sempre com o mesmo objetivo, mas reaprendemos a viver com a ausência do nosso filho, pois assim ganharíamos forças para lutar. Não podíamos nos entregar ao desânimo nem à tristeza. Íamos a festas, passeávamos e como de costume, todo ano viajávamos para o exterior. Quando fizemos bodas de prata, Úrsula quis retornar ao local onde passamos a lua de mel: Veneza, na Itália.
Revivemos nossos primeiros momentos de casados e percebemos que o nosso amor era o mesmo ou talvez mais forte. Um dia antes de retornarmos ao Brasil, fomos ao teatro. Logo que entramos percebemos um rapaz moreno de olhos claros olhando fixamente pra nós. Confesso que fiquei retraído. Desviei o olhar, mas ele estava mesmo nos encarando. Na verdade estava fixado na estampa de nossa camisa. Tomei coragem e fui até ele. Perguntou-me quem eu era. Perguntei por que olhava para nossas camisas. Por um momento meu coração gelou. Seria meu filho? Úrsula tremia e quase já deixava as lágrimas rolarem pelo seu rosto. Depois de uns dez minutos de conversa, pediu para ir com ele. Ficamos com medo, mas resolvemos acreditar em suas palavras. Disse que sabia onde estava o nosso filho. Estudara junto com Samuel e ele sempre exibia aquela foto.
Confesso que foram os minutos mais demorados da nossa vida. Pietro nos levou até uma boate. “Ele sempre vem aqui”, disse. Esperem aqui fora!
Ficamos esperando ansiosos pelo reencontro. De repente aparece em nossa frente um jovem muito bem vestido que ao nos ver fica estático. Nossos olhares se cruzaram e nossas almas se juntaram em uníssono para celebrar aquele momento. Abraçamos e beijamos nosso filho como loucos. Choramos. Rimos. Depois nos sentamos e Samuel nos disse olhando a camisa: “Eu sabia que não desistiria, mãe. Eu também nunca desisti, mas a senhora sempre apaga o lixo eletrônico e não abre e-mails de estranhos.
Ele nos contou que foi criado por um casal milionário e que sofreu muito quando seus pais adotivos disseram que nós havíamos morrido naquele barco. Depois disso não tentou mais se comunicar conosco. Levou-nos até sua casa e ao ver seus pais adotivos Úrsula aproximou-se bem deles e disse:
_ Obrigada por nos fazer sofrer durante todo esse tempo, obrigada por todas as dores que sofri desde aquele dia até hoje.
Terminou a fala esbofeteando a face dos dois com uma força tal que nunca vi igual. Samuel a abraçou e a beijou carinhosamente.
_ Vamos embora!
Tiramos nossas camisas e a paz retornou à nossa alma.


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