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quarta-feira, 26 de junho de 2013

O Encontro

Hoje, eu acordei com uma enorme vontade morrer. Olhei ao meu redor e vi uma escuridão a me cercar. Abri a janela e o silêncio penetrou como uma brisa, levando-me a uma retrospectiva da minha vida. Com quem partilho meus problemas, projetos e sonhos? Não há ninguém pra me ouvir... Ou eu não consigo abrir a minha boca pra falar sobre mim? Não há um ombro onde eu possa descansar minha cabeça, não há um sonho palpável. Tornei-me seco, indiferente às pessoas que me cercam. O bálsamo da liberdade secou e a pureza dos meus olhos desapareceu. Quem sou eu? Não me reconheço... Nem diante do espelho, nem no amanhecer nem no anoitecer. Vago por entre as sombras de minha alma nebulosa e o que encontro é só a vontade de partir.

Comecei a escrever uma carta para alguém, mas não consegui um destinatário. Rasguei o papel e atirei na lixeira. Abri uma gaveta à procura de minha arma. Um tiro seria o suficiente e poria fim a este martírio e abriria a cortina para uma nova passagem, uma passagem desconhecida e às vezes temida, mas no momento era almejada, desejada por mim. O que estavam lá eram algumas fotos. Eu ainda criança no colo de minha mãe, sorrindo com um carrinho na mão, meu pai do lado com um largo sorriso no rosto, parecendo contemplar-me com aqueles olhos azuis que o faziam semelhante aos anjos, se é que anjos têm olhos azuis, mas sempre vi o meu pai com um anjo, tão bom ele era e tão manso, sábio. Minha infância foi tão maravilhosa, tanto amor eu sentia, tanto amor eu recebia... Beijos, abraços, carinho que foram interrompidos aos dez anos de idade, numa noite de natal em um acidente de carro. Quando sai do coma fiquei sabendo que meus pais já estavam sepultados há três dias.

Por que fui encontrar essa foto agora? Quanta saudade me veio aqui no meu peito! Lembrei-me da fala de meu pai, sua última frase pra mim, antes do acidente. As lágrimas rolaram ainda mais aceleradas e eu senti um arrepio percorrer todo o meu corpo. Cai de joelhos ao chão agarrado àquela foto e chorei até soluçar. Acabei dormindo ali e quando acordei, por volta das 15 horas, ouvi um pássaro cantar na janela. Levantei com os olhos pesados, mas o corpo leve, a alma flutuante. O pássaro voou e sumiu entre as árvores do quintal. Debrucei sob o peitoril da janela e senti o vento tocar meu rosto. Agradeci a Deus pelos meus pais, pela minha vida. Depois tomei um banho demorado, vesti uma camiseta e uma bermuda e sai para aproveitar meu final de semana.

Eu não me esqueci de dizer qual é a frase, apenas deixei para este último parágrafo. Ele me perguntou o que eu queria ser quando crescesse? Eu disse que queria ser médico. Ele sorriu e disse: "Você será e salvará muitas vidas...". Antes que eu falasse qualquer coisa ele completou: "... Portanto cuide muito bem da sua." Engraçado como uma frase pode mudar o rumo de uma vida. Já não me sinto a mesma pessoa que acordou hoje pela manhã, sou um novo homem, graças ao anjo que sempre me ensinou coisas boas e tenho certeza sempre me acompanhará até o dia do nosso reencontro.

Juarez do Brasil
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