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sábado, 29 de junho de 2013

Tálamo



Bati com força a porta e fui para o meu quarto. Comecei a revirar as gavetas. O suor pingava em meu rosto e meu corpo tremia por inteiro. Tantos papéis guardados. Extratos bancários, comprovantes de pagamentos, recibos, catálogos, até receitas médicas. Cada gaveta que eu abria estava cheia de coisas inúteis, quase nada valia a pena guardar. Nem as lembranças que vinham em minha mente. 

Olhei para a cama e me lembrei a primeira vez que dormimos juntos. Foi uma noite inesquecível. Descobrimos juntos aquele momento mágico, lembrei-me até da cor dos lençóis. A cumplicidade no olhar, o romantismo em cada gesto, em cada palavra...Tive vontade de partir aquela cama em pedaços por um instante. Naquele momento o que eu sentia era somente nojo e revolta. Tive vontade de vomitar, de gritar, mas não fiz nada disso. Subi em um banquinho e olhei em cima do armário, mas só havia poeira e uma mala velha. Parei diante do espelho. E me olhei como nunca havia olhado antes. Consegui ver cada detalhe como em uma imagem de alta definição. Eu vi a dor em cada linha do meu rosto; a solidão escondida no canto dos meus olhos se transformando em lágrimas.

A alma recortada por uma lança e salpicada pelo veneno de uma espécie não tão rara de víboras. Aquelas que se fazem de amigas para tomar tudo o que é seu. Aquelas que invejam você desde o raiar do dia até o anoitecer e que passam a fazer parte da sua vida almejando seus sonhos, seus bens, enfim, desejando tomar o seu lugar, e na primeira oportunidade o toma e normalmente se fazem de vítimas, de frágeis criaturas para tentar apagar sua culpa.

Cai de bruços sobre a cama e comecei a chorar amargamente. Quantas vezes senti prazer ali! Quantas vezes ficamos até de madrugada conversando e trocando palavras de carinho! Carícias, afagos tão apaixonados... Será que algum dia ele foi sincero comigo? Será que fui tão inocente e nunca percebi que ele fingia o tempo inteiro? Esses pensamentos me faziam sentir mal e meu coração se enchia de revolta. Lembrei dela no meu casamento desejando-me felicidades com aquele sorriso de bruxa. Só agora vejo que era de bruxa. Antes era de fada. Fada madrinha. Estava atormentada pela idéia de vingança. Mas eu não queria cometer um assassinato, queria apenas me libertar de todo aquele sentimento que me corroía por dentro. Aquele ódio que não me deixava dormir. 

Tive um momento de loucura e dei asas a ele. Peguei uma tesoura e comecei a cortar os lençóis, depois partir para o colchão com uma faca e o deixei em pedaços, e cada facada que eu dava eu via os dois pedindo por socorro. Eram eles que eu cortava. Eram eles que eu destruía. Até a cama eu quebrei. Ajuntei tudo e joguei no lixo. Não podia mais continuar com aquele móvel infiel a mim. Era meu leito conjugal e não deveria compactuar com nada que fosse me ferir, não poderia ter permitido outra mulher no meu lugar.

Sai do quarto e fui até o escritório, liguei o computador. Entrei nas minhas redes sociais e por um momento quis fazer igual a todos que terminam um relacionamento e mudar logo o meu perfil para “solteira”, apagar todas as fotos de nós dois, mas isso não iria mudar nada do que eu estava sentindo. Então fiz melhor. Exclui minha conta. Assim não iria ver nenhum comentário, nenhuma piada e nem frases ridículas em relação ao que aconteceu comigo e muito menos veria a cara dos dois. Precisava de um tempo. Precisava respirar e me reencontrar. 

Antecipei minhas férias e viajei para o nordeste. Levei comigo a mágoa, o ódio, a dor, o sentimento de culpa, que aliás, não sei por que senti isso, mas a maioria sente e ainda pergunta pra si mesmo: _”Onde foi que errei?” Errei sim. Errei em ter escolhido mal uma pessoa pra casar. Lavei minha alma nas praias do Recife, nas areias de Natal e curti a beleza de cada lugar por onde passei. Deixei todos estes sentimentos perdidos por lá e não quis trazê-los de volta em minha bagagem. O que eu quero agora é ser feliz, mesmo que seja sozinha. Isso é possível, basta eu me amar, e isso eu tenho aprendido a cada dia.

Aos dois eu só digo uma coisa: Sorte a minha que não encontrei aquela arma. Hoje eu estaria presa por matar dois “inocentes”, pois como eles mesmos se justificaram em um bilhete deixado em minha caixa de correio: “Sara nos desculpe, foi tudo culpa do amor...” Portanto estou livre em todos os sentidos. Livre da culpa, livre para amar, para ser amada e como é bom viver em liberdade com a certeza de que fiz a coisa certa.

Juarez do Brasil
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