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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Solidão e folhas secas: devaneios




Hoje acordei bem cedo e comecei a molhar o jardim. Algumas borboletas bailavam sobre as poucas flores que restavam. Arranquei algumas plantas secas e tentei reanimar outras quase sem vida. Revirei a terra com uma espátula e a cada movimento eu me lembrava de você ao meu lado. Quantas vezes regamos juntos aqueles canteiros! Quantos sonhos plantados naquele lugar! Faltou adubo? Água?

Lembrei-me de quando voltamos de um passeio na fazenda do seu tio. Você trouxe várias mudas de plantas e à noite mesmo, vigiados pela lua nova, plantamos todas elas e depois brincamos de jogar água um no outro com aquela mangueira velha. Não sei quantas vezes tivemos que religar as emendas que toda hora se soltavam com a pressão. Foi muito divertido, posso ouvir suas gargalhadas, ainda posso sentir seu corpo molhado grudado ao meu, até as batidas aceleradas do seu coração...

Depois sentei na varanda e fiquei observando o sol nascer, mas não tinha o mesmo sorriso de antes e nem o mesmo brilho, ou era eu que o via diferente. Do meu lado só uma cadeira triste e vazia encostada na parede talvez esperando seu corpo se ajeitar nela como fazia todas as manhãs. Quase senti pena de mim mesmo, mas este é um sentimento que eu desprezo, então levantei-me num sobressalto e fui para o meu quarto. Precisava me acostumar sem você. Precisava reaprender a viver e aceitar sua decisão de partir.


Eu sempre acreditei que era feliz nesta casa simples, sempre acreditei que bastava nosso amor, mas você se cansou de ter somente a mim e quis correr atrás do ouro que não pude lhe dar. Eu entendi seus motivos, mas tenho certeza que não encontrará em lugar nenhum o que eu lhe ofereci e isso me causa dor, pois sei que mesmo conquistando fortunas e sendo rodeada de pessoas ilustres terá em seu coração um vazio que não a deixará feliz.

Sentei em nossa cama e fiz uma oração pra você. Senti meu coração arder de saudade, meus olhos se encheram de lágrimas, então tomei um banho demorado, vesti minha melhor roupa, usei meu único perfume, o qual ganhei em um amigo oculto e fui dar uma volta pelas ruas. Queria encontrar os amigos, era domingo, mas ainda estava cedo demais. Cidade quase deserta. Sentei no banco da praça e fiquei olhando as pessoas passarem, e comecei a analisar a história de cada uma conforme o jeito que andavam ou se vestiam. Pensei que estava ficando louco, sacudi a cabeça e ameacei voltar, mas senti vontade de ir até a padaria, ao vê-la do outro lado da rua.


Comprei pão e leite, pedi pra anotar em minha conta, desejei um bom dia pra moça do caixa, a qual me olhou por cima dos óculos, e depois sai. Não tinha mais pra onde ir. Teria que voltar pra minha casa. Nem estava com fome, mas quando se tem conta em padaria, a gente sempre compra quando passa perto. Encontrei um menino vendendo jornal, pedi um, mas percebi que não tinha dinheiro, o garoto me olhou de cima a baixo e seguiu em frente e eu retornei para o meu cativeiro.

A porta estava aberta e uma festa acontecia lá dentro. Entrei sem entender nada, não era meu aniversário. Ao me aproximar daquelas pessoas elas desapareciam como fumaça; a música parou e me vi sozinho no meio da sala. Olhei para um lado e para o outro e só as paredes me olhavam, fiquei tonto e cai sobre o tapete. Abri os olhos e vi uns pés enormes perto do meu rosto, mas não eram humanos. Assustei e desfaleci.

Quando acordei vi uma mulher de roupa branca se aproximar de mim e perguntar meu nome. Respondi que era Giuliano, mas nem eu mesmo sabia se estava certo. Tomei alguns remédios e voltei pra casa com uma lista de exames pra fazer no outro dia. Sentei novamente na varanda. Avistei um vulto ao longe vindo em minha direção, coloquei um sorriso no rosto, abri meus braços e sai ao seu encontro.

Juarez do Brasil
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