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sábado, 21 de setembro de 2013

Dentro da Alma


Ele me tomou pela mão e me levou até uma mansão maravilhosa. Eu fiquei em frente ao portão todo ornado em ouro e não conseguia desviar o olhar daquela obra tão perfeita e bem projetada. Que arquiteto teria criado uma casa tão bonita? Fiquei imaginando como seria por dentro. Com certeza seria ainda mais linda. 

- Entre! Disse ele soltando minha mão.

O portão se abriu imediatamente. Fiquei parado por um instante, mas ele insistiu dizendo para eu entrar. Tive medo, mas tomado pela curiosidade não resisti. Ele ficou do lado de fora, disse que eu precisava entrar sozinho. Uma escuridão tomou conta de mim, procurei pelo interruptor e até alcançá-lo tropecei em vários objetos espalhados pelo chão, e minha curiosidade aumentava ainda mais. Pressionei a tecla. Uma luz fraca se acendeu no meio de uma enorme sala, mas eu não consigo descrever em detalhes o que vi. Estava tudo revirado, sofá em cima do outro, teias de aranha nos tetos e cantos das paredes, quadros caídos no chão. Não via a mesma beleza que vi do lado de fora. 

Atravessei a sala e fui até a cozinha. Moscas sobrevoavam restos de comida. O ar era fétido e insuportável. Não consegui ficar por lá muito tempo. Abri uma porta pensando que era uma saída e um monte de lixo caiu sobre mim. Junto vieram ratos e baratas. Senti tanto nojo e fiz vômito. Eu me arrastei pelo chão junto aos vermes que pareciam querer me devorar, mas com muito esforço consegui sair daquele antro. Desejei sair da casa, mas uma voz me disse para subir as escadas e conhecer os quartos. Elas tremiam à medida que eu ia pisando nos degraus. Com muito custo eu cheguei lá em cima, depois de retirar todos os objetos que apareciam no meu caminho. 

Na porta de um quarto havia um crucifixo virado de costas. Achei estranho e o coloquei do modo correto. Girei a maçaneta e ouvi um choro vindo lá de dentro. Estremeci. Mas abri assim mesmo. Havia uma enorme cama e sobre ela parecia dormir um casal debaixo dos lençóis. Tropecei em um abajur, depois arredei com o pé algumas almofadas caídas no chão. A poeira subiu ao meu nariz e me fez espirrar. Puxei o lençol e quase desfaleci. Havia mesmo um casal, mas em estado de putrefação e mais uma vez fiz vômito. O cheiro era tão forte que provoca tonturas. Ouvi novamente o choro, porém muito mais alto. Ensurdecedor. Sai e fechei a porta. Sentei no chão e percebi que estava em meio a vários livros velhos. Peguei um, mas ele se desfez em minhas mãos, toquei em outro e quando eu o folheei saiu uma porção de insetos e começaram a andar sobre mim. Levantei-me num sobressalto e sacudi meu corpo para espantá-los.

Caminhei em direção as escadas. Queria ir embora de uma vez. Mas uma luz se acendeu no final do corredor. Parei. Olhei as escadas e segui em sua direção, mas algo me impulsionava a ir para a luz, e eu fui. Abri a porta e um clarão tomou conta de mim. Era como se eu estivesse em meio às nuvens. Meus olhos ficaram turvos, um cheiro de perfume entrou pelas minhas narinas, mas eu não conseguia ver nada, apenas sentia a beleza e suavidade daquele lugar. Fui andando tentando me agarrar em algo, mas não esbarrei em nada, e de repente quando me vi, eu estava em frente ao portão da casa novamente, então o anjo pôs a mão em meus ombros e perguntou:

- Como se sente?

Eu o respondi com outra pergunta:

- Por que me trouxe até aqui?

O anjo me tomou pela mão novamente e disse:

- Venha comigo. Há algo que eu preciso mostrar a você.

Quando me vi já estava dentro da casa outra vez. Mas nem parecia a mesma. Tudo estava no seu devido lugar. Cortinas limpas, mesa farta na cozinha… Um ar agradável, na verdade um perfume de santidade exalava naquele lugar. Uma música suave se ouvia em cada cômodo. Fiquei impressionado com a beleza e a limpeza daquela casa que há poucos minutos eu via tão suja e feia.

- E então como se sente agora?

- Sem palavras para explicar. Não dá vontade de sair daqui. Tudo é perfeito, tudo é belo, tudo é extraordinário, é como eu imagino o amor.

- Vamos sair agora, disse-me o anjo.

- Deixa eu ficar um pouco mais. Não sei quando voltarei a ver um lugar como este novamente.

- Depende de você, meu rapaz.

- Como assim? Indaguei curioso.

O anjo sentou-se no sofá da sala e olhou ao nosso redor, depois fixou os seus olhos nos meus e disse:

- Isso aqui que você está vendo é a sua alma em seu estado original, do jeito que Deus criou, sem mácula, semelhante a Ele.

Ele não precisou dizer mais nada e eu comecei a chorar compulsivamente, mas ele continuou:

- Mas não é assim que ela se encontra hoje, como pode ver em sua primeira visita aqui. Nem você a suporta, nem você a quer. Encanta-se por fora, mas por dentro…

Ele continuou a falar sem me acusar, apenas me acolheu e disse que estava ali para me ajudar a restaurar minha alma se eu quisesse. Explicou o que significava cada coisa que vi da primeira vez que entrei na casa. A cozinha suja e putrefata é a minha mesquinhez, a minha dificuldade em dividir o que tenho com o irmão que sofre. A sala bagunçada representa os compromissos e as promessas não cumpridas. A escada tremendo é a minha inconstância, os livros pelo chão são as palavras torpes que saem da minha boca, o casal putrefato na cama é a minha falta de zelo com o sacramento do matrimônio, e o choro é da minha própria alma que sofre.

O anjo colocou as mãos sobre meus olhos lacrimejados e quando eu os abri estava em casa deitado em minha cama. Olhei para os lados e não vi ninguém, apenas a cortina balançando ao toque de uma suave brisa que invadia meu quarto naquela manhã de primavera.


Juarez do Brasil
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